Na
semana passada comemoramos o que os mais religiosos chamam de Semana Santa. Os não
religiosos e ateus também não ligam por chamá-la assim, já que para muitos é um
feriadão de 3 dias onde todos podem optar por descansar em seus lares, fazer
uma viagem ou visitar algum parente que não via há tempos. Existem, ainda,
aqueles que conseguem fazer os três ao mesmo tempo. Incluo-me entre estes
últimos.
Eu
e minha estranha necessidade de ficar só, acordamos no sábado com aquele
formigueiro na cama típico de quem quer relaxar o máximo possível, mas não tem
a mínima intenção de perder o feriadão dormindo. Então levantei e resolvi
digitar um texto para o Blog. Claro que o barulho de pessoas na casa não me
permitiu me concentrar o suficiente para que eu pudesse ter alguma ideia. Peguei
então meu caderno, uma caneta (Bic) e meus óculos, entrei no carro e saí sem
rumo definido.
Existe
uma estrada entre as cidades de Itu e Cabreúva que se chama Estrada Parque. É
uma estrada asfaltada, bastante simples, que fica no meio da APA TIETÊ, margeada
por uma floresta e pelo Rio Tietê. Ok. Em alguns trechos o cheiro não é dos
melhores, mas a beleza da estrada é inquestionável. A cada curva uma nova
surpresa. Trechos de Serra e de retas se alternam, revelando paisagens únicas e
dignas de admiração.
Peguei
esta Estrada e resolvi ver aonde chegaria. Foi quando vi a placa que mostrava “Pirapora
de Bom Jesus – 37 Km”. Lembrei-me então dos romeiros que todos os anos
atravessam a cidade de Itu vindo dos lugares mais distantes para poderem chegar
a esta estrada e ir para Pirapora. Alguns carregam cruzes imensas a pé, outros
vão a cavalo, outros a pé, alguns de bicicleta, enfim, muitos romeiros que
tentam professar sua fé ou cumprem uma promessa por este caminho. Arrisquei-me,
então, a prosseguir até esta famosa cidade religiosa.
No
caminho, pude avistar muitos que prosseguiam em sua peregrinação. Muitas
famílias caminhavam juntas. Havia os solitários, que apenas caminhavam, sem levar
nada consigo somente a fé. Alguns, já exaustos, mancavam com claros sinais de
fadiga. Eu observava tudo aquilo, questionando o quão forte pode ser a fé de
uma pessoa. Ela é capaz de fazer o ser humano ultrapassar os próprios limites
para chegar aos objetivos aos quais se determinam.
Após
curvas e mais curvas, subidas de diferentes inclinações, trechos de sombra e de
sol, cheguei à Pirapora do Bom Jesus. Um caminho realmente espiritual de paz e
reflexão, mas cujas dificuldades me fizeram imaginar o quão difícil deveria ser
aquela romaria. Ao chegar à Igreja Matriz, pude ver um incontável número de
Crucifixos de todos os tamanhos, com as mais diferentes inscrições e
dedicatórias, com o nome de todos os romeiros e os locais de onde vinham. Foi
quando vi uma Cruz, que devia ter uns 4 metros ou mais, com a inscrição de
Piracicaba. Gente, o caminho de Piracicaba à Bom Jesus é algo em torno de 140
Km! Foram 140 Km de caminhada levando uma Cruz de aproximadamente 4 metros!
Não, não levaram de caminhão ou carro! Quando vi isso, confesso que me
assustei. Foi aí que percebi o quão bonito é a fé das pessoas. Uma pessoa, que
certamente estava pagando uma promessa, carregou uma Cruz por 140 Km. Tudo bem.
Muitos colocam rodas na parte posterior da cruz para ajudar. Mas ainda assim,
são 4 metros! E, com certeza, havia outras cruzes de outros lugares ainda mais
distantes.
Senti-me
realizado com aquela viagem. O caminho tranquilizador foi muito agradável e inspirador.
Acabei não escrevendo nada naquele dia, mas as coisas que pude ver, a beleza da
Estrada e a fé daqueles romeiros que vem dos lugares mais distantes para
cumprir com suas promessas, valeram por todo o feriadão e por mil textos. Espero
que todos aqueles que passam pela região reservem parte do seu tempo para fazer
esta jornada. Independente de credo ou não credo, é uma oportunidade ímpar e
digna de ser vivida. Que novas viagens revelem locais tão agradáveis quanto
este!
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