Há quem acredite em
almas. Há quem não acredite. Há quem diga que todos os seres possuem alma. Há
quem diga que somente humanos tem alma. Mas, afinal, o que é alma?
Para alguns, alma é
espírito. Um componente sobrenatural que habita em nossos corpos e que nos liga
com o criador ou com a força suprema. Aquilo que nos garante que somos algo além
da matéria que um dia apodrecerá num chão úmido e comido por seres
invertebrados. Seria a alma o nosso “eu” que continua, aquilo que migra após a
nossa saída desta terra de desilusões e sofrimento.
Para outros, alma é
nada mais nada menos do que nossa consciência. Nossa capacidade de dialogar com
nós mesmos em nossa mente. Seria a expressão abstrata do nosso cérebro por meio
do raciocínio, que nos faz pensar e refletir sobre tudo que está a nossa volta.
Independente da
descrição, a dúvida é: quem tem alma? Quando nos deparamos com alguém mal, alguém
que não se importa com quem está a sua volta, alguém que pensa somente em si
mesmo, alguém que não mede forças para fazer o mal a alguém, dizemos que este
ser humano é “desalmado”. Seria a alma então a nossa essência benéfica? Aquilo
que nos leva a agir de forma “humana”? Que nos leva a sermos melhores e a nos
preocuparmos com os outros? Aquilo que nos faz ceder o lugar na fila para uma
pessoa que precisa ou nos faz sorrir quando quem amamos chega em casa? Seria
isso alma?
E por que somente os
humanos tem alma? Por que somente nós somos capazes de agir com “humanidade”?
Somente nós somos capazes de agir de forma altruísta e não medirmos esforços
para fazer feliz quem amamos? Somente nós?
Pois um dia eu fui
apresentado a um ser de outra espécie. Um cão. Um ser que para o ordenamento
jurídico brasileiro não é mais do que uma coisa. Um ser que, para muitos, não
passa de uma espécie inferior, uma fera a ser dominada, alguém a quem jamais
devemos chamar de filhos. Um cão. Ou melhor, uma cadela. Da raça boxer para ser
mais exato.
Quem gosta de cães deve
conhecer bem essa raça. Deve saber que seus admiradores, quando acostumados com
competições de exposição, preferem os exemplares mais tigrados ou de cor lisa,
como caramelo e marrom. Mas os brancos são ignorados. Não são mais tanto assim.
Mas quando conheci aquela cadela, eram. Ninguém os queria porque nem Pedigree
eles tem direito. São considerados como uma “aberração” da raça.
Da ninhada, eram
somente duas brancas. E esta em especial, ninguém quis comprar. Sim, comprar.
Cães de raça ainda se compram. Sou a favor da adoção, mas quando se quer um cão
daquela característica, a raça importa e cães com raça se vendem. Ela ficou por
último. Somente uma pessoa se interessou nela, mas sem convicção suficiente
para poder comprá-la. Eu então a conheci. Ela tinha uma mania, um tique, sei
lá, de lamber toda hora. Lambia o vento parecendo que mandava beijos. Logo foi
apelidada de “máquina de dar beijos”. Totalmente branca e com focinho
inteiramente rosado. Parecia mais um porquinho da índia do que um cão. Eu a
amei desde o primeiro contato.
Foi então que me foi
oferecida. Eu estava de mudança para o interior do Rio Grande do Sul. Um lugar
muito distante de onde eu estava. Minha família toda longe. Eu estaria
sozinho numa terra desconhecida. A dona dela, minha então namorada, a levou
para mim um mês depois da minha partida. Ela já estava maiorzinha, mas ainda
era um porquinho da índia. Cabia no colo. Foi minha companheira durante todo o
tempo que fiquei lá sozinho. Ela assistia jogos de futebol, participava dos
churrascos, brincava, fugia pela janela, eu resgatava e tinha que dar banho,
ela rasgava o saco de carvão, enfim, aprontava como todo bom filhote, mas à
medida que crescia, mostrava que era a melhor cadela do mundo. Não podia ver
ninguém triste perto dela. Aprendeu a discutir como gente. Dormia na cama. Sim.
Dormia. Ela aos poucos se tornou uma filha.
Ela esteve comigo
durante os dias mais difíceis da minha vida. Ela esteve do meu lado quando
chorei ou quando sorri. Todos os dias que cheguei em casa ela abanou o rabo e
brincou comigo. Nunca me mordeu por querer. Nunca mordeu ninguém. Nunca ficou
brava com nenhuma pessoa. Era uma verdadeira criança. Andou diversas vezes de
carro, com o cinto de segurança canino, no banco de trás, sentada olhando a
janela fechada por causa do ar-condicionado, como se fosse uma pessoa que olha
pelo caminho. Olhava para mim quando eu falava com ela como alguém que entende
tudo que está sendo dito. Nunca deu trabalho. Nunca machucou ninguém. Nunca ficou
brava comigo mesmo nas vezes que briguei com ela por algo de errado que ela
fez. Sempre se encostava na gente para que não saíssemos de perto dela sem ela
perceber.
Ela fez tudo o que
podia para fazer feliz quem estava perto dela por toda sua vida. Quando as
outras cadelas chegaram, mais duas, ela cuidou delas como uma mãe atenciosa.
Brincou e ensinou como ser. Ensinou-as a ser tão pacientes e serenas quanto
ela. Ensinou-as a ficarem quietas enquanto eu tocava violão. Ensinou-as a pedir
para eu voltar a tocar quando parava.
Ensinou-as a nunca brigar por causa de comida e a não brigar com quem brincava
com elas enquanto elas comiam. Enfim, ela criou melhor os outros cães do que
eu.
Ela fez de tudo para me
fazer feliz. Ela nunca me deixou triste. Nunca precisei me preocupar com o que
ela estava aprontando. Ela sempre fez de tudo para não incomodar. Tanto foi
assim, que até para morrer esperou o momento em que ninguém estivesse em volta
para que ninguém se preocupasse. Ela não estava só em casa. Ela já estava
doente, mas fez de tudo para mostrar que estava bem. Não mostrou dor em um
minuto sequer.
Então eu volto à
pergunta: quem tem alma? Quem faz bem as pessoas? Alguém que não mede esforços
para fazer alguém feliz? Alguém que pensa mais em quem ama do que em si mesmo?
Isso é ter alma? Então o ser com mais alma do mundo foi ela. Ela teve muito
mais alma do que qualquer ser humano deste planeta. Ela jamais me deixou só. As
outras não superaram a falta dela. Elas andam pela casa chorando e procurando.
Quando retirei seu corpo da casa, as outras sabiam exatamente que ela não
voltaria. Choraram como choram irmãos no velório de um deles.
Então eu pergunto: quem
tem alma? Os seres humanos, superiores, que do alto da sua capacidade racional,
estão mais preocupados em ser felizes do que fazer alguém feliz? O ser humano
que está mais preocupado em criticar quem lhe faz bem do que dar carinho a quem
precisa? O ser superior que não demonstra o mínimo de alegria ao ver um amigo?
Se ter alma é dar o melhor de si para fazer alguém feliz, ela foi a melhor alma que já conheci na vida!
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