O ser humano e o seu estranho modo de enfeiar o que é belo ao tentar
ordenar o que já está ordenado. É uma estranha tendência a tornar
tudo milimetricamente (im)perfeito tentando encaixar o “ecossistema”
numa suposta ordem social, que não faz sentido nem para os membros
da sociedade, e acaba tirando tudo da sua forma original nos fazendo
perguntar qual o real sentido de raciocinarmos se o raciocínio nos
leva a sermos mais estúpidos do que todos os outros animais.
Perdemos mais tempo tentando "acertar" o que está perfeito do lado de
fora do que tentando aceitar o que nos cerca e mudar o que está
imperfeito do lado de dentro. Uma eterna procura por deixar tudo numa forma
perfeita baseados num padrão traçado por seres imperfeitos que se
julgam superiores por saber usar o polegar como pinça, mas que é capaz de matar por sem ser por fome ou por defesa. O polegar da morte.
Aquele que nos tornou capazes de matar pelo simples gosto , pelo cheiro
do sangue vertendo sobre a terra. Um satisfação tão deplorável e
inerente a nossa espécie que quando não estamos possibilitados a derramar sangue quente, virtualizamos o sangue pelo simples prazer de
derramá-lo. Quanto mais sangue melhor. Quanto mais morte, melhor!
Se fosse necessário definir esta espécime maldita em uma palavra,
definiria como insatisfação! Uma insatisfação eterna. Um eterna
necessidade de tentar dominar e determinar toda a sorte de
probabilidades que existe ao nosso redor. Queremos estar seguros de
tudo; mas quando atingimos a máxima segurança, subimos o
Kilimanjaro numa suposta busca pela emoção, pois só a adrenalina
nos faz felizes. Ficar parados não nos faz bem. Movimentar é ótimo.
Mas evoluímos (será) milênios, séculos, décadas, anos, meses,
dias, horas, minutos, segundos, para conseguirmos tudo que precisamos
para vivermos mais, mas quando conseguimos viver mais, nos matamos
dia-após-dia, uns aos outros, a nós mesmos, com atitudes e toda
sorte de palavras tão estúpidas, que atingimos um
equilíbrio universal no caos que causamos. Somos dependentes da
morte.
Moro no interior de São Paulo. Não sou Paulista, mas gosto muito das
cidades do interior de São Paulo. São, geralmente, muito
organizadas, com serviços públicos eficientes e um nível de
limpeza e urbanismo que julgo como de primeiro mundo. Claro, não se
pode generalizar nem superestimar. Ainda estamos no Brasil. Então
não podemos esperar cidade super arborizadas e com ciclovias com
viabilidade suficiente para diminuir o trânsito louco mesmo numa
cidade de 150 mil habitantes. Mas, ainda assim, são cidades
minimamente organizadas. Mas essa tendência á "organização" que me fez questionar qual o preço disto tudo. Tomamos atitudes tão
estúpidas e desnecessárias em nome desta “organização”.
Construímos e quebramos tudo. Quebramos o que nós mesmos construímos.
Quão organizados podemos ser?
Um dia eu andava de carro em uma cidade aqui próxima. IDH padrão
europeu, educação de qualidade, renda per capita altíssima,
mas ainda assim, composta por seres desta espécie maldita.
Funcionários da prefeitura faziam um serviço de jardinagem em volta
de uma ciclovia. Aparavam a grama, podavam plantas e arbustos,
limpavam a calçada e tudo mais inerente a este tipo de serviço.
Quando percebi que os arbustos que margeavam a ciclovia continham uma
linda flor azul. E estas flores pequeninas formavam um lindo cordão
azul em volta de toda a pista. Enquanto eu me distraia com esse lindo
cordão, um funcionário da prefeitura, alguém que provavelmente só
cumpria ordens, passou um aparados nos arbustos e acabou com todas as
flores. Os arbustos ficaram totalmente quadrados, milimetricamente
quadrados, mas sem nenhuma cor. Aquele lindo cordão azul desapareceu
em instantes dando lugar a um milimétrico muro verde sem graça em
torno de toda a ciclovia.
Esta é a ordem que queremos.
Queremos a nossa ordem. Nossa milimétrica e
feia ordem. Nossa monocromática ordem. Nossa forma desordenada de
fazer ordem. Tudo o que queremos é ordenar tudo que já está
perfeitamente ordenado em nome de uma suposta ordem social. Ordem e
mais ordem; toneladas de ordem; megatons de ordem! Palavras de ordem,
livros sobre ordem, caos pela ordem, ordem pelo caos. E toda esta
ordem sobre o fim de algo. Toda a ordem sempre sobre o fim de uma
vida. Somos viciados na morte. Matamos pela ordem. Ordenamos a morte.
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