segunda-feira, 21 de março de 2016

TUDO PELA ORDEM

O ser humano e o seu estranho modo de enfeiar o que é belo ao tentar ordenar o que já está ordenado. É uma estranha tendência a tornar tudo milimetricamente (im)perfeito tentando encaixar o “ecossistema” numa suposta ordem social, que não faz sentido nem para os membros da sociedade, e acaba tirando tudo da sua forma original nos fazendo perguntar qual o real sentido de raciocinarmos se o raciocínio nos leva a sermos mais estúpidos do que todos os outros animais.

Perdemos mais tempo tentando "acertar" o que está perfeito do lado de fora do que tentando aceitar o que nos cerca e mudar o que está imperfeito do lado de dentro. Uma eterna procura por deixar tudo numa forma perfeita baseados num padrão traçado por seres imperfeitos que se julgam superiores por saber usar o polegar como pinça, mas que é capaz de matar por sem ser por fome ou por defesa. O polegar da morte. Aquele que nos tornou capazes de matar pelo simples gosto , pelo cheiro do sangue vertendo sobre a terra. Um satisfação tão deplorável e inerente a nossa espécie que quando não estamos possibilitados a derramar sangue quente, virtualizamos o sangue pelo simples prazer de derramá-lo. Quanto mais sangue melhor. Quanto mais morte, melhor!

Se fosse necessário definir esta espécime maldita em uma palavra, definiria como insatisfação! Uma insatisfação eterna. Um eterna necessidade de tentar dominar e determinar toda a sorte de probabilidades que existe ao nosso redor. Queremos estar seguros de tudo; mas quando atingimos a máxima segurança, subimos o Kilimanjaro numa suposta busca pela emoção, pois só a adrenalina nos faz felizes. Ficar parados não nos faz bem. Movimentar é ótimo. Mas evoluímos (será) milênios, séculos, décadas, anos, meses, dias, horas, minutos, segundos, para conseguirmos tudo que precisamos para vivermos mais, mas quando conseguimos viver mais, nos matamos dia-após-dia, uns aos outros, a nós mesmos, com atitudes e toda sorte de palavras tão estúpidas, que atingimos um equilíbrio universal no caos que causamos. Somos dependentes da morte.

Moro no interior de São Paulo. Não sou Paulista, mas gosto muito das cidades do interior de São Paulo. São, geralmente, muito organizadas, com serviços públicos eficientes e um nível de limpeza e urbanismo que julgo como de primeiro mundo. Claro, não se pode generalizar nem superestimar. Ainda estamos no Brasil. Então não podemos esperar cidade super arborizadas e com ciclovias com viabilidade suficiente para diminuir o trânsito louco mesmo numa cidade de 150 mil habitantes. Mas, ainda assim, são cidades minimamente organizadas. Mas essa tendência á "organização" que me fez questionar qual o preço disto tudo. Tomamos atitudes tão estúpidas e desnecessárias em nome desta “organização”. Construímos e quebramos tudo. Quebramos o que nós mesmos construímos. Quão organizados podemos ser?

Um dia eu andava de carro em uma cidade aqui próxima. IDH padrão europeu, educação de qualidade, renda per capita altíssima, mas ainda assim, composta por seres desta espécie maldita. Funcionários da prefeitura faziam um serviço de jardinagem em volta de uma ciclovia. Aparavam a grama, podavam plantas e arbustos, limpavam a calçada e tudo mais inerente a este tipo de serviço. Quando percebi que os arbustos que margeavam a ciclovia continham uma linda flor azul. E estas flores pequeninas formavam um lindo cordão azul em volta de toda a pista. Enquanto eu me distraia com esse lindo cordão, um funcionário da prefeitura, alguém que provavelmente só cumpria ordens, passou um aparados nos arbustos e acabou com todas as flores. Os arbustos ficaram totalmente quadrados, milimetricamente quadrados, mas sem nenhuma cor. Aquele lindo cordão azul desapareceu em instantes dando lugar a um milimétrico muro verde sem graça em torno de toda a ciclovia.


Esta é a ordem que queremos. Queremos a nossa ordem. Nossa milimétrica e feia ordem. Nossa monocromática ordem. Nossa forma desordenada de fazer ordem. Tudo o que queremos é ordenar tudo que já está perfeitamente ordenado em nome de uma suposta ordem social. Ordem e mais ordem; toneladas de ordem; megatons de ordem! Palavras de ordem, livros sobre ordem, caos pela ordem, ordem pelo caos. E toda esta ordem sobre o fim de algo. Toda a ordem sempre sobre o fim de uma vida. Somos viciados na morte. Matamos pela ordem. Ordenamos a morte. 

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