Marta e Ricardo são casados há 20 anos e levam uma vida pacata numa
cidade média do interior juntamente com seus dois filhos, José, 13 anos, e
Juliana, de 15 anos. Sua filha é fanática por computadores e redes sociais,
onde conheceu Paulo, um jovem misterioso e atraente que vive em outro país. Os
dois começaram a se corresponder com bastante frequência. Mas na verdade Paulo
é Antônio, um criminoso virtual de 45 anos que seduz jovens na internet. Este
romance “inocente” acabará levando a família a uma trama de suspense com
mentiras, crimes e tragédias.
A história acima é totalmente fictícia e os nomes dos
personagens são igualmente inventados. Ela caberia facilmente em qualquer
enredo hollywoodiano, mas o roteiro tem sido escrito diariamente em diversas
famílias pelo mundo levando-as a verdadeiras histórias de terror com finais
cada vez mais trágicos.
A era altamente tecnológica em que vivemos possibilitou uma
comunicação instantânea com quase totalidade do globo terrestre. Essa
comunicação facilita o aprendizado e dinamiza o conhecimento, porém tem se
tornado uma porta para a ação de diversos criminosos que vão desde pedófilos
até assassinos. Polícias do mundo inteiro tem se especializado para combater os
crimes cibernéticos, mas a verdadeira e eficaz prevenção deve acontecer dentro
das casas.
Há algum tempo o crime mais comentado nas redes sociais e por
parte da mídia atende pelo nome de “Baleia Azul”, um “jogo” onde criminosos
seduzem jovens e crianças para aderirem a certos desafios que começam em níveis
mais brandos, com atitudes vistas apenas como “bagunceiras” e evoluem para
automutilação, assassinato e suicídio. As técnicas dos criminosos não fogem à
regra dos outros crimes virtuais. Começam com um “flerte” na internet para que
haja uma correspondência mais contínua, persuasão e, num estágio mais avançado,
coação, com ameaças baseadas em dados muitas vezes fornecidos pelas próprias
vítimas diretamente ao criminoso ou através da exposição nas redes sociais.
A semente para a existência destes crimes é bastante conhecida e
amplamente alertada pelos órgãos de segurança: uma excessiva exposição na rede
mundial de computadores, aliada a uma falta de fiscalização dos pais sobre o conteúdo
acessado pelos filhos. E esta semente expõe a fragilidade da atual formatação
da família moderna e da cultura de inversão de valores que vivemos em nossa
sociedade.
Já nas décadas de 90 e 2000 as autoridades de segurança
alertavam que a excessiva exposição na internet de dados pessoais, rotinas e
propriedades dos usuários eram uma porta para que criminosos reais e virtuais
se utilizassem dessas informações para cometer seus delitos. Munidos de
informações de viagens, locais de trabalho, bens, festas, os criminosos
selecionam suas vítimas e planejam o crime de forma a tornar o mais difícil
possível o trabalho da polícia em reagir a estes crimes.
Com a popularização das redes sociais e o avanço tecnológico que
permitiu que os computadores saíssem das casas e fossem parar no bolso dos usuários
através dos smartphones, esta exposição se tornou cada vez mais ampla e
precoce. A intimidade da vida privada
tornou-se quase nula. As pessoas passaram não só a compartilhar mais a sua
rotina, mas a criá-la dentro das redes sociais, dando informações antecipadas de
planejamentos de viagens, entrevistas de emprego, planejamento para aquisição
de imóveis e automóveis, relacionamentos, amizades, tudo! O ser humano médio se
tornou uma espécie de programa ligado à rede mundial onde todos os seus passos
são instantaneamente veiculados. Mas o que era “privilégio” dos jovens e
adultos até meados dos anos 2000, passou a abranger também as crianças com o
advento dos smartphones. Isto porque os pais começaram a presentear seus filhos
em idades cada vez menores com estes aparelhos com a ideia de que estariam
aumentando a segurança pela facilidade de comunicação. Mas o fenômeno percebido
foi o inverso.
As crianças aprendem cada vez mais cedo a utilizar seus
aparelhos tecnológicos. Os aplicativos são frágeis e sem “restrição de uso”. Os
mecanismos de censura etária são verdadeiras piadas. Os pais utilizam os
aparelhos como forma de distraírem seus filhos de forma que estes não os
incomodem. Resultado: crianças de 08 anos conversando com criminosos de
qualquer idade do outro lado do mundo, enviando fotos íntimas, praticando
desafios propostos e marcando encontros em lugares escondidos.
Toda esta problemática tem diversas variáveis que são amplamente
conhecidas e incentivadas dentro dos próprios lares. As primeiras já foram
citadas. A introdução precoce das crianças ao mundo virtual e a falta de
comunicação e fiscalização dos pais. Junte-se a isto a “Sexualização” da
infância, com o estímulo a relacionamentos, à prática sexual e a comportamentos
promíscuos cada vez mais antecipados. Ainda temos a variável da banalização da
exposição da imagem pessoal e a “idolatria” a modelos “imorais” por parte de
boa parte da mídia. Existem diversas outras variáveis, obviamente, uma vez que
a dinâmica social não se prende a estes ou aqueles parâmetros, mas os
principais estão descritos.
Quando comparamos as gerações vemos que existe um paradoxo na
dinâmica familiar. Até meados dos anos 90, os momentos de lazer das crianças e
adolescentes se resumiam a jogar bola, subir em árvore, brincar de boneca,
correr, pular, se esconder, etc. A criança saia de casa 08:00 da manhã e meio
dia sua mãe já estava “desesperada” procurando-a nos campinhos do bairro até
que a achava e a levava para almoçar puxando sua orelha e dando tapas na bunda.
As crianças e adolescentes passavam a maior parte do tempo fora de casa, mas
faziam suas refeições com a família, seus pais sabiam exatamente quem eram seus
melhores amigos, onde estes moravam e quem eram seus pais. Sabiam que roupas
eles usavam, sabiam exatamente quais eram seus brinquedos e em que estado
estavam. A unidade familiar era muito mais fortalecida. As broncas eram
constantes, mas o respeito era mútuo.
Hoje, a criança e o adolescente passa a maior parte do tempo
dentro de casa na frente dos computadores, celulares ou jogos de videogame online.
Os pais já não os procuram porque “sabem” (acham) que estão em seus quartos
(mas tanto faz se não estiver). Eles não almoçam mais juntos, não sabem quais
são os amigos dos filhos, não sabem com quem eles conversam na maior parte do
tempo, não se preocupam com o que eles veem na internet, não sabem o que os
filhos vestem e pouco se importam se os filhos usam drogas ou praticam crimes.
Desde que não os incomodem enquanto trabalham.
Claro que toda generalização é perigosa. Mas a descrição acima é
a mais compatível com as famílias desta e daquela época. O resultado está aí.
Os pais mostram um “que” de preocupação, mas agem como se fosse uma realidade
relativamente distante dos seus filhos. Ainda os incentivam a ter
relacionamentos sexuais antes dos 15, ainda os vestem como funkeiras e
funkeiros da moda, ainda não se preocupam com quem se comunica com eles por
meio dos celulares e são ridicularizados por seus filhos quando os seguem ou
solicitam amizade nas redes sociais acreditando ser uma invasão a privacidade
do filho.
A melhor frase proferida por um especialista em psicologia
infantil especializado em problemas cibernéticos foi mais ou menos a seguinte: “Criança
e adolescente não tem que ter privacidade em relação aos pais. Os pais tem o DEVER de saber com quem seus
filhos se relacionam através da internet e fora dela”. Infelizmente esta ideia
é totalmente rechaçada pela grande mídia que através de outros “especialistas”
comprados pregam justamente o oposto.
A verdade é que enquanto a família moderna não se atentar para a
comunicação dentro do seio familiar, enquanto os pais não entenderem suas reais
responsabilidades e enquanto estes não impuserem limites aos seus filhos diante
dos conteúdos tecnológicos, ainda veremos muitos casos de pedofilia e jogos de
baleia azul, boto amarelo, jacaré verde, onça pintada...
Nenhum comentário:
Postar um comentário