Esta semana o Governo,
através do Ministro da Ciência, Tecnologia e Comunicações, voltou a reafirmar o
interesse em limitar a internet Banda Larga fixa no Brasil. Poucos instantes
após a afirmação do ministro, a internet foi inundada por textos com análises e
opiniões, tanto de especialistas quanto de pessoas comuns que se manifestaram
refutando a ideia.
Mas por que este
assunto incomoda tanto os brasileiros? Bom, quem vive no Brasil, ou já o visitou
em alguma oportunidade, sabe o quão ruim é o serviço de internet no país. As
redes móveis (aparelhos celulares e tablets) são limitadas a pacotes caríssimos
com limites mínimos. Algumas operadoras, visando atrair o público, criaram
pacotes com redes sociais ilimitadas. Isso sem contar com uma velocidade
péssima. O problema é que a ideia do Governo é autorizar às operadoras a
utilizarem o mesmo sistema na Internet Banda Larga Fixa. Ou seja, cada consumidor
teria um limite de pacote de dados que, depois de finalizado, implicaria em
redução da velocidade ou, até mesmo, suspensão total do serviço até que o
consumidor adquirisse um pacote adicional.
O argumento mais
utilizado pelas operadoras é o gargalo operacional que o sistema enfrenta no
momento no país. Quem opina nas redes sociais é enfático ao afirmar que tudo
não passa de um plano do governo brasileiro para diminuir o poder da internet
nas decisões políticas do país, tentando evitar o que ocorreu em 2015 e 2016
com as manifestações contra o antigo governo; manifestações estas planejadas e
divulgadas através das redes sociais.
Os especialistas do assunto garantem que o
argumento das operadoras é uma meia verdade. Segundo eles, há sim um gargalo
operacional do serviço de Internet no Brasil, mas garantem que se trata de um
problema que poderia ser facilmente resolvido em um acordo das operadoras com o
governo através do aumento do investimento tanto privado quanto estatal no
setor.
Do lado dos que
criticam a proposta, há sim boas razões para acreditar que, ainda que não se
trate de um plano “diabólico” do governo, o interesse em evitar esta situação
está em última prioridade, já que a internet se tornou uma ferramenta
importante de oposição e debate político.
Os fatos são mais
complexos do que o que se sugere. Primeiro é necessário entender quão baixo é o
nível do serviço no Brasil. Segundo diversos sites, o Brasil atualmente ocupa a
90ª posição no ranking da média de velocidade da internet. Na América do Sul, o
Brasil ocupa o 7º lugar neste quesito.
A estimativa da ONU é
que 70% dos países possuem internet ilimitada. Nos países onde há a limitação
de internet, os valores dos planos ilimitados são mais baratos do que os planos
atuais brasileiros.
Outros estudos colocam
o Brasil na 2ª colocação em um ranking de 15 países com a internet Banda Larga
mais cara, com o custo médio de 1 Mbps de US$ 25,06, atrás somente da Argentina
(US$ 46) e com um custo quase 9 vezes
maior do que os USA (US$ 3,33).
Em suma, o que se
pretende é limitar um serviço de internet de péssima qualidade e aumentar um
custo que já é exorbitante. O que acontecerá na prática, caso esta proposta
saia do papel, será um serviço de internet que manterá o baixo nível, com uma grande
variação de pacotes dentro de cada operadora, sendo que o pacote ilimitado
acabará custando um valor absurdo, inviabilizando completamente a utilização da
Rede Mundial de Computadores de forma democrática no país. Em outras palavras,
essa proposta só servirá para enriquecer ainda mais as operadoras que manterão
a baixa qualidade e ganharão duas vezes por ele. Primeiro com a venda do pacote
limitado e depois com a compra dos pacotes adicionais, semelhante ao que ocorre
na internet móvel.
O assunto é polêmico.
Polêmico não por dividir opiniões, pois já está claro que poucas pessoas apoiam
a proposta, mas sim porque aqueles que o apoiam ocupam os cargos políticos com
poder decisório e, com toda a certeza, os interesses escusos das operadoras falarão
mais altos. Fica a torcida para que a opinião pública continue se manifestando e
consiga dissuadir o governo de prosseguir com a ideia. Mas, conhecendo o
Brasil, sabemos que cedo ou tarde o assunto será levado ao debate nas casas do
legislativo.
As consequências, caso
a proposta um dia seja trazida para a realidade nacional, serão nefastas. Hoje
a internet tem sido o único meio de mídia independente capaz de fazer frente às
grandes redes. Limitar a internet seria calar a mídia livre, fazendo com que as
opiniões do público fossem construídas pela parcialidade da televisão brasileira
e dos jornais de grande circulação. E isso seria o cenário ideal para uma nova
perpetuação no poder sem grandes oposições.




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