Tive a oportunidade de
assistir nesta manhã um trecho de uma entrevista com o Professor Leandro Karnal
onde ele afirma que acreditar que aquilo que você pensa acontece é inerente a duas
classes de pessoas: as crianças e os esquizofrênicos. Assistindo ao restante do
trecho se verifica a forma como ele questiona a imputabilidade das mazelas
sociais aos indivíduos e não ao Estado.
Vivemos hoje em uma
espécie de sociedade místico-ideológica onde somos levados a crer desde
crianças que aquilo que nós imaginarmos se realizará. A mídia e os livros de
autoajuda tentam nos condicionar a um pensamento positivo como único capaz de
alterar nossa situação socioeconômica. O problema disto é a continuidade lógica
do pensamento, como afirma o próprio Professor Karnal na entrevista, de que a
partir do momento em que acreditamos que o indivíduo determina seu sucesso
através de sua positividade de pensamento, estamos dizendo que as pessoas sem
sucesso também são responsáveis, logo, estamos dizendo que o pobre é pobre
porque quer.
Estamos imputando ao
indivíduo problemas sociais que não cabem a ele resolver de forma isolada.
Dizer que o grupo, a sociedade, o coletivo tem forças para alterar o curso da
história é coerente, mas imputar ao indivíduo diretamente toda sorte de
problemas que lhe ocorram é demasiadamente grave.
Mas o grande problema é
que este pensamento está sendo difundido em ampla escala seja na mídia, seja na
literatura de autoajuda. Em ambos somos levados a acreditar que podemos alterar
toda e qualquer situação através unicamente de nossas atitudes e pensamentos.
Isto é parcialmente verdade. E aqui cabe uma contrapartida: acreditar que as
atitudes e pensamentos também são totalmente ineficazes é deturpar o conceito
de meritocracia imputando a este próprio a causa do seu fracasso.
A verdade é que nem
tanto nem tampouco. Hoje vivemos num país que se autodefine como democrático,
mas com baixíssima liberdade econômica. No Brasil, a estimativa é que metade
das empresas fechem as portas a cada 3 anos. Somos o país com a maior carga
tributária do mundo, somando-se os impostos diretos e indiretos. Ocupamos a
116ª posição no ranking dos lugares mais fáceis para a abertura de empresas e a
120ª posição no ranking dos melhores lugares para negócios. A verdade é que nossa
legislação para abertura de empresas é arcaica e complexa. Nossa burocracia
desestimula e atrapalha o empreendedor. Estima-se ainda que o tempo médio para
a abertura de uma empresa no Brasil chegue a mais de 100 dias!
Diante do cenário
acima, como podemos dizer com ênfase que o Brasil é um país livre? Como podemos
querer imputar ao individuo a responsabilidade por seu estado econômico? Mas
este é o cenário ideal para a implantação da corrupção sistemática. Pega-se a
meritocracia e tenta-se inserir em um contexto como o descrito acima; é muito
provável que não vá dar certo. Depois que a meritocracia falhar pelas
circunstâncias do sistema e não do conceito, leva-se ao grande público a ideia
de que o principal causador das desigualdades é justamente esta meritocracia. E
qual o próximo passo? Assistencialismo! Vende-se a ideia de que o
assistencialismo é o salvador da pátria já que é impossível a mobilidade social
e econômica dentro do Estado Brasileiro por “culpa dos mais ricos”. Daí faz-se
a coisa que o brasileiro mais gosta: dá-se dinheiro a ele. Ele não pensa que
receber R$ 300,00 do governo para assistência num país onde a cesta básica custa
em média R$ 360,00 não vai tirá-lo da miséria.
A verdade é que
estamos criando um país de “faz de conta” nos dois extremos. De um lado estamos
incentivando o pensamento de que o individuo determina sua situação social unicamente
através do seu pensamento, o que é ilusório, e do outro lado estamos inserindo
a ideia de fracasso da meritocracia no Brasil para que possamos manter nossos
programas assistencialistas. Como disse, nem tanto nem tampouco. O Brasil
precisa urgente de uma reestruturação sistemática. O problema do Brasil é
multifacetado. E enquanto acharmos que somos os únicos responsáveis pelo nosso
sucesso ou que o sistema é o único responsável pelo nosso fracasso, jamais
conseguiremos um pensamento coletivo forte o suficiente para mudar a
sistemática atual.