O Brasil continua por atravessar um momento delicado em sua
história, onde as pessoas se digladiam em defesa de suas ideologias (aqueles
que têm alguma) e esquecem-se de prezar por um país mais honesto.
Poucos daqueles que brigam e lutam por um país mais honesto de
forma apartidária, tem coragem de confessar “erros políticos” que, por ventura,
tenham cometido no passado. Erros como permitir ou contribuir que certos
partidos tenham ascendido ao poder, inclusive, votando neles.
A verdade é que as décadas de 90/00 foram décadas de “reconstrução” democrática. O País saiu de um período de 20 anos de Regime Militar e ingressou no governo Sarney tentando retomar os rumos das eleições diretas. Foram cinco anos para reconstruir o caminho até as urnas.
Logo na primeira eleição pós Regime Militar, o primeiro
presidente eleito, Fernando Collor de Melo, não conseguiu terminar o seu
mandato por conta de diversos escândalos de corrupção que culminaram em seu
impeachment. O seu principal adversário nestas primeiras eleições foi Luiz
Inácio da Silva.
Daí para frente Lula disputou mais duas eleições em 94 e 98,
vindo a perder as duas para Fernando Henrique Cardoso. O detalhe é que até
meados da década de 90 o Brasil se encontrava numa grave crise econômica, com
inflação estratosférica e o povo com um poder aquisitivo cada dia mais
precário. FHC surgiu em 93 com o Plano Real e conseguiu frear essa inflação, o
que alavancou sua chegada ao Palácio do Planalto.
Com o fim da inflação e a subida do poder de compra do
brasileiro que viu, de repente, sua moeda equiparada ao dólar e podendo
usufruir de produtos e serviços em preço “próximo” ao exterior, a reeleição de
FHC era uma consequência. Mas o seu segundo mandato foi marcado por diversas
privatizações realizadas de modo pouco popular. O povo brasileiro não estava “preparado”
e ficou assustado com as privatizações das telecomunicações, da Vale do Rio
Doce e diversas outras estatais. Mesmo que depois de 20 anos as virtudes da
privatização se mostrem claras, apesar das obscuridades ainda não respondidas
durante processo, à época elas geraram uma insatisfação quase que generalizada
no grande público.
No meio dessa turbulência gerada por privatizações com processos
questionáveis e pela falta de um nome forte para concorrer à presidência, Lula
surgiu como o nome “salvador da pátria”. 20 anos depois o povo entende que o
nome mais inteligente para o momento seria o de Eneas Carneiro, que na época
era visto como um louco pela forma quase cômica como era obrigado a se
apresentar nas propagandas pela falta de tempo, mas que não concorreu à
presidência naquele ano.
As grandes redes televisivas que, como sempre, assumiram uma
posição situacionista, depois de criticarem Lula durante 15 anos, passaram a
propagar essa imagem de “salvador da pátria”. A falta de nomes de peso (José
Serra não gozava de boa imagem fora de São Paulo) serviu para propagar ainda
mais essa imagem de Lula. O resultado foi um verdadeiro baile e a vitória certa
do candidato do Partido dos Trabalhadores.
Tudo que foi plantado de 94 a 2001 começou a render frutos. A
economia começou a melhorar seu desempenho ano após ano, os números começaram a
impressionar os mais céticos, o Brasil começou a melhorar sua imagem diante dos
investidores e o povo, com a memória mais curta que sei lá o que, atribuiu este
“milagre econômico” ao seu “salvador da pátria”. Estava pavimentado o caminho
para a reeleição em 2006.
Foram sete anos de “pura fartura”. O governo tomou as decisões
mais equivocadas possíveis no setor econômico, mas a base forte construída de
94 a 2001 foi capaz de sustentar toda a gastança sem que o país passasse por
maiores problemas. Mesmo quando a crise mundial motivada pela bolha imobiliária
estourou em 2007 o Brasil parecia navegar por um mar de tranquilidade. A
resposta do governo foi justamente injetar cada vez mais dinheiro na economia e
subsidiar tudo o que pudesse ao máximo possível. A especulação imobiliária
brasileira atingiu níveis inimagináveis, mas o povo estava feliz porque tinha
uma casa para morar.
Com todo esse cenário desenhado, o substituto de Lula não
precisava ser ninguém muito carismático. E foi assim que a impopular e
intragável Dilma Roussef ascendeu à presidência. Mas a economia já começava a
dar fortes sinais de que algo não estava bem. Os escândalos de corrupção que
começaram mesmo na época do governo Lula ganharam força, os políticos do
Partido dos Trabalhadores começaram a ser indiciados um após o outro, os casos
Celso Daniel e Toninho do PT voltaram a correr em meio a opinião pública e a
queda do avião de Eduardo Campos durante a corrida presidencial de 2014
acabaram jogando o índice de rejeição da então presidente às alturas. Mas
novamente a falta de um nome de peso para concorrer à presidência (Aécio Neves não tem boa avaliação fora de
Minas Gerais) levaram Dilma ao segundo mandato.
Mas a vitória de 2014 veio acompanhada da certeza de que ela não
terminaria o mandato. Os escândalos de corrupção envolviam quase todos os seus
ministros e os principais chefões do PT. Era questão de tempo até que o
impeachment chegasse. E chegou. Não da forma como todos (opinião pública)
queriam. Ninguém queria Michel Temer no poder. Aliás, ninguém o quer. Mas era o
que tinha e o que tem até 2018.
Moral da história, a relação do Partido dos Trabalhadores com o
grande público foi do inferno ao céu e do céu ao inferno. Muita gente que votou
em Lula em 2002, que fez campanha e que colocou estrela no peito naquele ano,
12 anos depois colocou uma camisa amarela e foi para a rua. O que nós
brasileiros vamos aprender com isso ainda não sabemos. Bons nomes estão
surgindo. Mas a mídia brasileira perderia muito dinheiro com a vitória de bons
nomes. Resultado: propagação do medo. E claro, medidas controversas do
judiciário para afastar os bons nomes da corrida presidencial do ano que vem.
Só resta a esperança de que cada um assuma parte da sua parcela
de culpa e não erre novamente em 2018.
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