segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

PIADAS DO ALÉM TEJO



Nos últimos tempos a televisão brasileira, em seus telejornais e programas de auditório, tem bombardeado sua audiência com notícias e mais notícias a respeito de um mosquito capaz de transmitir diversas enfermidades sendo a mais famosa a dengue, mas que agora assusta por outra cujos sintomas são muito mais amenos, mas com consequências (hipoteticamente, ainda) mais sérias, no caso, a Zika.
Somos conduzidos a pensar, repensar e, de certa forma, nos entreter virando pratinhos de plantas, tampando caixas d´água e catando quaisquer espécies de lixo que surjam pelo caminho. Pensando de maneira fria e, demasiadamente, cruel, a Zika e a Dengue estão nos tornando Civilizados! Ou não também.
Procurar os tão temidos focos se tornou algo como um passatempo grotesco e trágico na vida cotidiana contemporânea como consequência de anos (para não dizer séculos) de falta de educação, imundice e estupidez. Mas o foco aqui não é este.
Após estudar vagamente sobre o tema e perceber o óbvio, que as doenças transmitidas pelo Aedes Aegypti dependem de três elos para que possam se proliferar, o vetor, o hospedeiro e o vírus, resolvi discutir com alguns amigos sobre o avanço do combate ao vetor e fui de pronto rechaçado (estou exagerando, ok?).  Na minha vasta ignorância, decidi pesquisar e vi que realmente eu estava sendo um estúpido manipulado.
O combate ao vetor com simples atitudes de higiene não é mais do que a nossa obrigação. É algo inerente ao nosso tão almejado estado de civilidade. É algo que não deveria necessitar de incentivo ou investimento governamental. Fugindo um pouco de números porque não se tem finalidade estatística aqui, mas sim uma reflexão, o governo tem incentivado sobremaneira com verbas o combate ao mosquito, mas pouco se ouve falar sobre investimentos à pesquisa e ao desenvolvimento de vacinas contra as doenças causadas por este artrópode inconveniente.
Pensemos de maneira fria. Estamos gastando milhões e milhões em campanhas de conscientização, em panfletos, em inseticidas, em propagandas midiáticas, em dias de mobilização nacional, mas pouco se fala dos investimentos para as entidades de pesquisa do nosso país.
Somos bombardeados por estas informações e levados a crer que estamos numa verdadeira guerra contra este mosquito. Mas só para pensarmos um pouco. A primeira descrição científica do nosso protagonista ocorreu em 1818, o que não necessariamente quer dizer que surgiu nesta época. Estima-se que a mais de 300 anos ele já exista em nosso país. Alguns afirmam que em 1955 o Brasil o Aedes Aegypti foi declarado erradicado do Brasil pela OMS (Organização Mundial da Saúde), mas que permaneceu em áreas do continente americano como Venezuela, Cuba e Etc. Esta suposta erradicação se deu durante um surto de febre amarela que assolou boa parte do território nacional. Note, porém, que a “erradicação” do mosquito não foi a única ação tomada na época. A pesquisa também foi incentivada e hoje temos a vacina contra a febre amarela, de tal forma que hoje estamos com esta doença controlada.
Neste raciocínio, podemos verificar que o combate ao mosquito como “única” alternativa não surtirá o efeito desejado. Num país onde a educação do povo é questionável, onde os sensos de civilidade e civismo são inexistentes, é difícil acreditar que possamos acabar de vez com este mosquito virando pratos de planta e tampando a caixa d´água apenas. Faltam ações de coleta de lixo seletiva eficaz, falta uma coleta de lixo que funcione de verdade, falta fiscalização e punição para quem joga entulho e lixo doméstico em locais abandonados, falta muita coisa. Mas ainda assim o governo está gastando um valor absurdo com panfletinhos para você virar seu pratinho de planta.
A quem interessa tudo isto? Pense assim. O desenvolvimento de uma vacina traria uma solução definitiva (ou quase) contra as doenças provocadas pelo mosquito em questão. Só que soluções definitivas não são interessantes para quem comanda o país. Solução definitiva significa que menos gente irá morrer, significa que diminuirá o gasto com o tratamento da microencefalia, significa que diminuirá ou acabará o gasto com campanhas de combate ao mosquito e outra série de medidas que dependem de repasse de verba. Só que menos gente morrendo significa explosão demográfica e isso não é de interesse governamental. Menos repasse de verba significa menos possibilidades de desvios, significa menos fontes de corrupção, significa menos contratação de gráficas de terceiros interessados, menos licitações de emergência e menos dinheiro no bolso de quem está ganhando com tudo isso.
Mas enquanto não há vacina, só nos resta “investir” no combate ao mosquito. Então, vamos sim virar os pratinhos de planta, tampar nossas caixas d´água, catar os copinhos de plástico na rua, parar de jogar lixo e entulho em terrenos baldios e todas as demais medidas que a convivência social e a cidadania exigem, mas que não conseguimos fazer porque nos falta, na verdade, educação. Mas isto é outra história.



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