Sei que parece melodrama,
Uma novela de Tv,
Um disco arranhado,
Um filme bem clichê.
Um jarro quebrado,
Um vidro fumê,
Um paletó desbotado,
Um discurso de michê.
A redundância, de fato,
Quem provoca é você
Quando sai do meu carro
Dizendo me querer.
Mas me deixa plantado,
Esperando por você,
Não atende o telefone,
Não sabe mais o que dizer.
Diz que estou errado,
Que eu quero lhe cercar.
Se tranca no seu quarto
Crendo eu exagerar.
Eu me sinto um culpado
E começo a prometer.
Enxergar o seu lado
Evitar lhe ofender.
Mas quando tudo está exato,
Sem queixas a fazer,
Você atende o telefone
Na hora do prazer.
Me olha já de lado
E começa a rabiscar,
Me informa o recado,
De novo vai zarpar.
Como um disco quebrado,
Um filme de Tv,
Um melodrama arranhado,
Uma novela de tão clichê.
Um vidro, de fato,
Um discurso fumê,
Um paletó recém comprado,
Um jarro de michê.
Eu fico estupefato,
Um homem demodê,
Um poeta enganado,
Tentando escrever.
Você volta, como sempre,
Felicidade nos lábios,
Me olhando, novamente,
Me achando exagerado.
Como um vidro arranhado,
Um disco clichê,
Um paletó amassado,
Um filme de michê.
Um discurso quebrado,
Uma novela fumê,
Um guarda-roupa em trapos,
Um jarro na Tv.
Um homem, um trapo,
Uma mala, Para quê?
Um recado e um retrato,
Uma redundância de você.
Yuri Lucchesi
http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=87957
domingo, 28 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
ESPERAR
O tempo passava desesperado por entre os dedos. O silencio lúgubre sufocava o som dos ponteiros que se moviam atrás de mim como se tentassem me empurrar para uma atitude desesperada. Era frio e vazio dentro do quarto com uma janela fechada que cedia passagem aos raios solares que nada mais serviam que para iluminar fracamente o ambiente.
Eu olhava o papel tão fixamente que suas linhas dançavam como dois cisnes ao som de uma sonata num lago ao luar. A caneta movia-se tão rapidamente que parecia querer pular da minha mão.
Entre uma suspirada e outra eu olhava para o lado tentando entender o silêncio que se abatia sobre minha cabeça. Em minha cabeça um milhão de possibilidades levitavam entre o real e o impossível. Algum tipo de prece me habitava num apelo desesperado de que quaisquer das linhas do pensamento fossem a real, exceto a que de fato eu esperava.
Pensava se a culpa era das linhas que antes fiz surgir. Imaginava até onde aquele silêncio poderia alcançar. Minhas mãos passeavam por sobre a mesa em busca de uma explicação lógica para aquele momento, mas tudo parecia tão áspero que eu sentia minha a pele descamando lentamente ao arrastá-la pela superfície fria que jazia diante do meu corpo.
Já não doía pela espera. Doía pela incerteza do que de fato surgiria. O peito queimava em angústia. O ar entrava e saía apertado, como se não houvesse espaço suficiente para sua existência dentro do meu corpo. Meus olhos ardiam como se aquele ar gélido fosse lacrimogêneo.
Larguei a caneta e comecei a tamborilar com os dedos uma melodia tão descompassada que meus ouvidos sentiram vontade de se tapar para que o silêncio nefasto retornasse ao recinto. Mas quanto mais eu desejava parar mais o descontrole chegava aos meus dedos numa fúria insana, como se a culpada daquele momento fosse a mesa que se estendia diante de mim.
Até que você apareceu, sedenta e inconformada, tão fúlgida e consonante, que fez meu corpo tremer numa emoção fugaz fazendo todo aquele momento anterior dissipar-se em alegria. O ar enfim tornou-se harmônico. A melodia que soaste em minha mente fez meus ouvidos quererem mais e mais de tua música fagueira. Meus dedos se acalmaram e caneta retornou reta e prudente ao papel com suas linhas perfeitas e coloridas. Nunca uma ideia mexeu tanto comigo. Nunca um minuto demorou tanto.
YURI LUCCHESI
http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=87957
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
DICA MUSICAL - O TEATRO MÁGICO
Me causa um certo espanto quando pergunto para alguém na faixa dos 18-35 anos se conhece "O Teatro Mágico" e ouço não como resposta. Acredito que seria melhor ouvir que a pessoa conhece e não gosta, do que simplesmente dizer que não conhece. Esta é uma clara demonstração do que nos é apresentado musicalmente hoje no Brasil.
Enquanto uma banda que, para mim, é uma das melhores do Brasil na atualidade em termos de letra e melodia mal é conhecida de boa parte da população, músicas patéticas "metralham" nossas mentes ano após ano.
Aos que não conhecem, fica esta dica musical com três músicas desta banda incrível. Aos que já conhecem, apenas mais uma chance de escutar música de boa qualidade.
O TEATRO MÁGICO - O ANJO MAIS VELHO
O TEATRO MÁGICO - ANA E O MAR
O TEATRO MÁGICO - NOSSO PEQUENO CASTELO
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
MASSIFICAÇÃO X CONSCIENTIZAÇÃO
MASSIFICAÇÃO X CONSCIENTIZAÇÃO
Estava
eu dirigindo meu carro um dia desses e ouvindo a Voz do Brasil. Por algum
motivo, aquele programa obrigatório me lembrou a “Teletela” do livro 1984
(ótima leitura). Para quem nunca ouviu este programa, acredite, você não está
perdendo nada. Não passa de uma propaganda político partidária travestida de
informativo dos 3 poderes (agora incluíram notícias do TCU). É uma hora do dia
onde o país é perfeito, as coisas acontecem da maneira ideal, todo o dinheiro
investido chega ao seu fim e todos estão felizes e contentes nos quatro cantos
do país.
Eu
gosto de escutar às vezes para poder rir um pouco de tanta baboseira, mas na
supracitada ocasião algo aguçou minha mente transtornada. Quando parei no
semáforo comecei a ouvir algumas notícias e me lembrei da reflexão passada
publicada neste blog. Não foi surpresa que o assunto fosse de novo dengue.
Neste momento, lembrei-me do livro acima citado. Pensei na massificação
propagada pelo “Big Brother” durante o livro como forma de alienar a população
fazendo uma verdadeira lavagem cerebral e levando-a a crer que o Grande Irmão
faz tudo pelo melhor dela. Como conseguir isso? Repetindo mil vezes a mesma
coisa!
Neste
momento eu comecei a contar por alto quantas vezes as palavras Aedes Aegypti,
Zika e Microencefalia foram ditas. Num percurso de 10 minutos, eu perdi a conta
em 35 vezes. Isso dá mais de 3 vezes por minuto! Parece exagero? Escute o
programa então. O “âncora” e os repórteres conseguiam incluir estas palavras em
qualquer assunto que era noticiado. Qualquer mesmo! Falaram da inclusão dos
jovens no ensino médio, conseguiram falar da Zika. Falaram sobre o programa
Minha Casa, Minha Vida, falaram do Aedes Aegypti. Microencefalia era alternado
entre essas palavras.
Daí
eu me lembrei da reflexão aqui postada. Qual o limiar entre a conscientização e
a massificação? Qual a verdadeira intenção em se falar tanto disto? Sim,
conscientizar as pessoas quanto a importância das medidas para evitar a
proliferação do mosquito é importante, mas o que se ganha falando mil e uma
vezes as mesmas palavras?
Foi
neste momento que me lembrei não só do livro citado, mas também de outra grande
obra chamada Admirável Mundo Novo (outra boa dica de leitura). Em ambas as
obras o medo é o principal veículo de dominação. E como se consegue este medo?
Fazendo acreditar que estamos à beira do colapso mundial ou lutando contra um “inimigo”
poderoso. E alguém tem dúvidas que o grande inimigo da nação hoje é o Aedes
Aegypti?
Não
estou questionando a gravidade do momento. Não estou questionando a importância
que deve ser dada à prevenção, ao combate ao mosquito, muito menos o sofrimento
das mães das crianças que nasceram com microencefalia. Mas algo nesta história
está sendo utilizado como meio de dominação. Sim, estamos sofrendo uma
massificação diária. Estamos com medo. Estamos comprando repelentes como
loucos, procuramos focos em todas as partes da nossa casa. Mas e o que tem sido
feito pelo governo?
Num
noticiário matinal, passou uma matéria sobre o investimento em pesquisas. De hoje
até 2021 o Governo pretende contribuir com 10 milhões de reais com pesquisas
conjuntas com os EUA para desenvolvimento de vacina contra a Zika. O Ministério
da Saúde afirma que em 2015 foram liberados R$ 1,25 Bilhão para Estados e
Municípios atuarem no combate à dengue (exames, fiscalização, conscientização,
etc.).
Entendem
que algo não está certo nesta conta? Entendem que algo não está dentro da
lógica? Entendem que não faz o mínimo sentido o governo gastar mais dinheiro
mandando-nos virar pratinhos e tampar caixas d´água do que em pesquisas para
uma vacina?
Enquanto
isso, vamos assistindo diariamente os nossos “Dois minutos do ódio” à
brasileira e ouvindo 50 vezes a mesma coisa. Quem sabe assim nossa crença no “Big
Brother” e nas suas recomendações não nos salve desta epidemia.
DICAS DE LEITURA:
1984 - George Orwell
Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley
Laranja Mecânica - Anthony Burgess
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
DICA MUSICAL - Rise Against
A dica musical de hoje fica por conta de Rise Against.
SAVIOR - RISE AGAINST
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
DICA MUSICAL - Paralamas do Sucesso
Nossa dica musical de hoje volta a prestigiar uma banda nacional. Particularmente, gosto muito dessa banda e noto que boa parte dos jovens de hoje desconhecem grande parte de suas músicas, com letras bem elaboradas e musicalidade, muitas vezes, simples, mas muito bem constituída.
Essa banda foi uma das grandes bandas de rock nacional dos anos 80, influenciando outras grandes bandas nacionais, mas que, por um marketing duvidoso da mídia, acabaram caindo numa descrição "POP Clichê", colaborando com trilhas sonoras de novelas e ficando à margem do gosto musical jovem pós anos 2000.
Deixo aqui duas pequenas homenagens aos Paralamas do Sucesso, com uma das músicas mais novas da banda e outra do período inicial da banda.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
DICA MUSICAL - Metallica
Hoje a dica musical não vai ser uma música apenas, mas sim um álbum/show inteiro. Considero este como sendo um dos melhores álbuns de todos os tempos. A simbiose perfeita, a mistura do metal com o "clássico", o preenchimento que a sinfônica deu ao rock ficou simplesmente perfeito, na minha humilde opinião. Bom, deixo que vocês tirem suas próprias conclusões.
Metallica S&M 1999 Full Concert
PIADAS DO ALÉM TEJO
Nos
últimos tempos a televisão brasileira, em seus telejornais e programas de
auditório, tem bombardeado sua audiência com notícias e mais notícias a
respeito de um mosquito capaz de transmitir diversas enfermidades sendo a mais
famosa a dengue, mas que agora assusta por outra cujos sintomas são muito mais
amenos, mas com consequências (hipoteticamente, ainda) mais sérias, no caso, a
Zika.
Somos
conduzidos a pensar, repensar e, de certa forma, nos entreter virando pratinhos
de plantas, tampando caixas d´água e catando quaisquer espécies de lixo que
surjam pelo caminho. Pensando de maneira fria e, demasiadamente, cruel, a Zika
e a Dengue estão nos tornando Civilizados! Ou não também.
Procurar
os tão temidos focos se tornou algo como um passatempo grotesco e trágico na
vida cotidiana contemporânea como consequência de anos (para não dizer séculos)
de falta de educação, imundice e estupidez. Mas o foco aqui não é este.
Após
estudar vagamente sobre o tema e perceber o óbvio, que as doenças transmitidas
pelo Aedes Aegypti dependem de três elos para que possam se proliferar, o
vetor, o hospedeiro e o vírus, resolvi discutir com alguns amigos sobre o
avanço do combate ao vetor e fui de pronto rechaçado (estou exagerando, ok?). Na minha vasta ignorância, decidi pesquisar e
vi que realmente eu estava sendo um estúpido manipulado.
O
combate ao vetor com simples atitudes de higiene não é mais do que a nossa
obrigação. É algo inerente ao nosso tão almejado estado de civilidade. É algo
que não deveria necessitar de incentivo ou investimento governamental. Fugindo
um pouco de números porque não se tem finalidade estatística aqui, mas sim uma
reflexão, o governo tem incentivado sobremaneira com verbas o combate ao
mosquito, mas pouco se ouve falar sobre investimentos à pesquisa e ao
desenvolvimento de vacinas contra as doenças causadas por este artrópode
inconveniente.
Pensemos
de maneira fria. Estamos gastando milhões e milhões em campanhas de
conscientização, em panfletos, em inseticidas, em propagandas midiáticas, em
dias de mobilização nacional, mas pouco se fala dos investimentos para as
entidades de pesquisa do nosso país.
Somos
bombardeados por estas informações e levados a crer que estamos numa verdadeira
guerra contra este mosquito. Mas só para pensarmos um pouco. A primeira
descrição científica do nosso protagonista ocorreu em 1818, o que não
necessariamente quer dizer que surgiu nesta época. Estima-se que a mais de 300
anos ele já exista em nosso país. Alguns afirmam que em 1955 o Brasil o Aedes
Aegypti foi declarado erradicado do Brasil pela OMS (Organização Mundial da Saúde),
mas que permaneceu em áreas do continente americano como Venezuela, Cuba e Etc.
Esta suposta erradicação se deu durante um surto de febre amarela que assolou
boa parte do território nacional. Note, porém, que a “erradicação” do mosquito
não foi a única ação tomada na época. A pesquisa também foi incentivada e hoje
temos a vacina contra a febre amarela, de tal forma que hoje estamos com esta
doença controlada.
Neste
raciocínio, podemos verificar que o combate ao mosquito como “única”
alternativa não surtirá o efeito desejado. Num país onde a educação do povo é
questionável, onde os sensos de civilidade e civismo são inexistentes, é
difícil acreditar que possamos acabar de vez com este mosquito virando pratos
de planta e tampando a caixa d´água apenas. Faltam ações de coleta de lixo
seletiva eficaz, falta uma coleta de lixo que funcione de verdade, falta
fiscalização e punição para quem joga entulho e lixo doméstico em locais
abandonados, falta muita coisa. Mas ainda assim o governo está gastando um
valor absurdo com panfletinhos para você virar seu pratinho de planta.
A
quem interessa tudo isto? Pense assim. O desenvolvimento de uma vacina traria
uma solução definitiva (ou quase) contra as doenças provocadas pelo mosquito em
questão. Só que soluções definitivas não são interessantes para quem comanda o
país. Solução definitiva significa que menos gente irá morrer, significa que
diminuirá o gasto com o tratamento da microencefalia, significa que diminuirá
ou acabará o gasto com campanhas de combate ao mosquito e outra série de
medidas que dependem de repasse de verba. Só que menos gente morrendo significa
explosão demográfica e isso não é de interesse governamental. Menos repasse de
verba significa menos possibilidades de desvios, significa menos fontes de
corrupção, significa menos contratação de gráficas de terceiros interessados,
menos licitações de emergência e menos dinheiro no bolso de quem está ganhando
com tudo isso.
Mas
enquanto não há vacina, só nos resta “investir” no combate ao mosquito. Então,
vamos sim virar os pratinhos de planta, tampar nossas caixas d´água, catar os
copinhos de plástico na rua, parar de jogar lixo e entulho em terrenos baldios
e todas as demais medidas que a convivência social e a cidadania exigem, mas
que não conseguimos fazer porque nos falta, na verdade, educação. Mas isto é
outra história.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
DICA MUSICAL - Legião Urbana
A dica musical de hoje vai para uma música que eu, particularmente, acho muito interessante e com uma letra profunda. Vale a pena ouvir e refletir.
Legião Urbana
Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão
Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos
Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão
É a verdade o que assombra
O descaso que condena
A estupidez, o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão
Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
- Tudo passa, tudo passará
E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos
Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
“EU” O universo particular
“EU”
O universo particular
Esse texto é fruto de uma série de reflexões. São resumos de observações pessoais a respeito desse universo próprio existente em cada ser humano a quem designamos de “eu”, mas que não aceitamos por imposições sociais.
“Há pessoas que vivem buscando métodos de ser melhor, dizem que precisam do que as deixem se sentir bem em meio aos outros, querem ser amigas de todos, tentam muitas vezes mudar o que são em sua essência para conquistar determinadas amizades, porém se esquecem do próprio valor e que amizades verdadeiras existem pelo que somos verdadeiramente. Há algumas coisas que precisamos pensar se quisermos ser alguém “bom pra todos”, que implica, antes de tudo, em olharmos pra nós mesmos e descobrirmos o que de fato estamos buscando. Primeiramente precisamos definir em nossas mentes o que é ser bom, o que é ser melhor, o que é ser sociável e enfim entender a diferença entre mudar e moldar e então olhar para nós mesmos e descobrir o que de fato vai nos deixar feliz em meio às pessoas e quais amigos, de fato, queremos ter. Se seguirmos essas ideias vamos parar e refletir que temos um valor próprio e é esse o único valor que temos que demonstrar, o resto acontece naturalmente.” (Bruna Francine)
1. Do bom e do ruim
A colocação genérica entre bom e ruim não entra em méritos essenciais de caráter. Essa rotulação, talvez equivocada, trata da compatibilidade de humores e atitudes cotidianas ligadas às nossas observações subjetivas às pessoas do nosso círculo de convivência. Em nada, em princípio, possui ligação com os conceitos de “maldade” ou “bondade” baseados em conceitos éticos e morais.
Dito isso, ser "ruim" é algo que depende de muitos fatores: se o dia está sendo bom ou ruim; se estamos com algum problema no trabalho ou na família, até mesmo de saúde; se tivemos uma boa noite de sono; mas principalmente, se nossa atitude é a que esperavam. Infelizmente o conceito de "bom" e de "ruim" vai de uma expectativa e da perspectiva de quem observa. Acho que somos pessoas boas que podem, muitas vezes, agir de forma "ruim".
O resultado dessa equação é que vale pra dizer se somos ou não "bom". Mas ainda assim, aquilo que pode ser "bom" pra um, pode ser "ruim" para outra pessoa e vice versa.
2. Ser melhor
Não queira ser melhor, queira ser você mesmo. Só não espere que te aceitem com suas diferenças; isso é mais difícil do que ser melhor, pois para ser melhor basta agir e falar o que as pessoas querem e da forma como elas querem, no momento em que elas querem. É só mudar seu jeito, seu corpo e sua personalidade diante de cada circunstância. É só aprender com os erros dos outros (em alguns casos, apontá-los) e esconder os seus. Ser melhor é fácil. Difícil é ser você mesmo e ser aceito por isso. Sim... Sermos nós mesmos é difícil... Mas dá a leveza de saber que estamos sendo aquilo que somos e nos tira a culpa e o peso de tentarmos ser aquilo que as pessoas esperam. Mas sermos nós mesmos às vezes implica em darmos conta que não somos perfeitos, então a mudança cai no que foi dito acima; se ela não for por nós mesmos, porque nos sentimos bem com ela, só vai nos amargurar ainda mais, porque além de nos sentir frustrados pelo que somos vamos ficar pior tentando ser o que os outros querem que sejamos.
Ser sociável vai muito além de moldar atitudes. Ser social é antes de tudo entender o próximo e permitir que haja empatia. É se interessar pelo que está sendo dito, é participar de conversas, é permitir-se debater de forma madura sem se digladiar. As pessoas não precisam de gente que molda suas atitudes. As pessoas precisam de gente que aceite as delas. Mas as pessoas também querem ouvir que estão erradas quando estão. A diferença entre ter muitos amigos e ter verdadeiros amigos está no que as pessoas podem esperar de você. Risadas em uma piada ou num assunto divertido sustentam uma amizade por uma hora. Lágrimas quando o outro está triste pode sustentar uma amizade por anos.
Ninguém é perfeito. Temos apenas que aceitar nossos defeitos e qualidades. Podemos sim tentar melhorar e modificar certas características. Mas mudar é diferente de moldar. Mudar é algo interno, parte de dentro; moldar é algo que vem de fora. Quando mudamos é porque vemos que precisamos mudar. Quando moldamos, estamos nos adaptando à determinada situação. De certa maneira, quando moldamos estamos atuando.
A mudança tem que ser uma consequência e não um fim. Ela não se extingue em si mesma. Deve ser um processo contínuo fruto do aprendizado cotidiano. Mas a motivação deve ser interna. Diria que mudar é um processo evolutivo. Se quisermos evoluir como pessoas, devemos mudar de dentro pra fora, não simplesmente nos adequando ao meio, mas justamente nos adequando como forma de reação ao meio. Às vezes as mudanças serão positivas ao meio e às vezes serão negativas. Mas é como disse, tem que vir de dentro, do aprendizado, da essência, da soma das experiências positivas e negativas. Um fruto a ser colhido da imensa árvore que é o aprendizado humano, onde cada galho, cada flor e cada folha são expressões singulares de sucessos e dissabores, mas a raiz é a essência, aquilo que nos faz “NÓS”, aquele “toque especial” que nos faz quem de fato somos, cada um, um “EU” único e totalmente próprio.
Já a moldagem não. É um processo externo, frio e com um único fim de adaptação e não de evolução. Quando rimos de uma piada que não gostamos ou concordamos com algo que não admitimos, estamos nos moldando e não mudando. É uma camuflagem. Uma persona que usamos para tentar mostrar algo que não temos e não somos.
Sim, em primeira observação a moldagem é mais "eficaz" para a sociabilização. Ela permite que as pessoas "gostem" de estar com a gente porque nos "tornamos simpáticos", sociáveis. Mas essas "amizades" são fugazes. Já na mudança ocorre um processo inverso. A mudança com a manutenção da essência nos tornará, em primeiro momento, "antipáticos" e, de certa forma, repulsivos. As pessoas nem sempre irão querer estar perto de nós. Mas em longo prazo as pessoas vão DESEJAR estar próximas porque verão que podem contar conosco para vida inteira. Há que se admitir, e talvez esse seja já o primeiro obstáculo do aprendizado, que existem pessoas cuja essência já é capaz de atrair as pessoas para próximo de si. São pessoas que se aproximam naturalmente. E é importante aceitar caso não se seja assim.
O mais importante não é a quantidade de pessoas que se acercam, mas sim a qualidade das pessoas que se mantém! Essa é a principal questão entre mudar e moldar; isso não quer dizer que precisamos nos moldar para conseguir isso. Independente do meio, temos de conquistar as pessoas pelo que somos, pelo que fazemos e pelo que pensamos de fato. Isso não implica em ser alguém repulsivo, mas sim em entender que cada pessoa se aproximará de forma natural se isso tiver que acontecer. Não precisamos rir de tudo para que gostem da gente. Ou rimos porque gostamos do que ouvimos ou não rimos. A pior coisa que alguém pode fazer é moldar-se.
A moldagem é como uma brasa sobre o gelo. Ela derrete a superfície que se adapta e muda sua forma e assim que a brasa se apaga, volta ao seu estado original. Mas se o gelo muito se molda uma hora a brasa atinge o interior ou deforma de vez o gelo. Assim somos nós; se nos moldarmos a tudo e a todos, uma hora deixaremos que o meio atinja nosso coração e nossa essência, e quando virmos, já teremos uma forma completamente diferente daquela que deveríamos ter pelo que somos. Em suma, se formos simpáticos pela necessidade de ser, uma hora mudaremos nossa essência.
Há um estudo que diz que a palavra que a pessoa mais utiliza durante a sua vida é a palavra “eu”. Mas esta não é a primeira palavra que pronunciamos. Nossas primeiras palavras se referem a pessoas e objetos especiais. Elas surgem da necessidade humana de interagir e manter próximo de si as pessoas e coisas que mais importam para nossa vida. É uma questão de sobrevivência saber chamar os pais e saber pedir o “mamá”. Mas analisando de uma forma mais complexa, mostra a dificuldade que o ser humano tem de entender o que de fato significa essa palavra tão proferida, este famigerado “eu”.
Quando uma criança aprende a referir sua colocação espacial com o tão simbólico “eu” um novo mundo se abre no processo evolutivo do ser humano. Ela entende que “mamãe”, “papai” e “mamá” não serão suficientes para ajudá-la a sobreviver no mundo. Ela precisa afirmar a sua presença, ela precisa justificar sua permanência e argumentar suas necessidades com esse pronome no início das frases. E assim permanece por toda sua vida. Uma das lições mais complexas de gramática, complexa no sentido de que na prática ninguém o executa, é que na existência de mais de um pronome, o “eu” vai em segundo lugar! E isso tem uma razão óbvia: o “eu” nunca estará em segundo lugar neste universo.
Cada universo é, de fato, único e particular. Nele cabe uma única pessoa: “eu”. Cada percepção, cada reação, cada estímulo, cada motivação é uma forma de interação deste universo próprio com o universo alheio. Mas, dentro de nós, somos sim a pessoa mais importante do universo. Esse egoísmo existencial, inato e particular é lógico e invariável: cada “eu” só pode viver o seu universo.
Mas quem de fato é este “eu”? Essa é uma pergunta que profissionais passam anos a fio tentando desvendar em letras de livros baseados em teorias e observações experimentais, mas que, ainda assim, conceituam de forma diversa. Se conceituar o “eu” é algo extremamente complexo, é fácil perceber que aceitá-lo é quase impossível.
Aceitar este “eu” é tornar-se responsável por cada virtude e defeito que esse universo particular possui. É aceitar a culpa e o louro de cada atitude, cada expressão deste egoísmo. Mas não é de fato isso que o ser humano quer. O ser humano não quer ser responsável pelas consequências de suas ações e assumir este “eu” seria aceitar que é responsável por cada problema que ele observa no seu mundo e no mundo comum. Aceitar este “eu” é assumir que não se pode mais culpar as oportunidade ou a falta delas por nada; é se assumir causador de cada dor que se sente; é entender que este mundo não é um lugar “ideal” para viver; a culpa é dele. Mas aí se inicia outro problema: o ideal de um “eu” é diferente do outro.
E nessa interação de incertezas próprias a respeito do “eu” é que se inicia o processo de mudança ou moldagem. Cada um quer a perfeição do seu universo e esta só é possível se houver uma interação harmônica com os universos alheios. E é nessa busca desenfreada pela suposta “perfeição” particular que o ser humano deixa de tentar entender e aceitar esse “eu”. O ser humano deixa de olhar as imperfeições do seu universo e entendê-las como características peculiares; deixa de observá-las e buscar conhecimentos e métodos de corrigi-las de forma profunda; uma modificação conceitual e essencial do “eu”. É nesse momento que o ser humano recorre a sua principal característica: a moldagem!
Ele “esquece” seus defeitos ao invés de aceitá-los; ele disfarça seus defeitos ao invés de confessá-los; ele traveste-se de um “eu” completamente estranho na busca desesperada pela mais perfeita interação do seu universo com o universo alheio para que o universo comum o aceite e é aí que o universo particular entra em colapso. Assim como nosso universo particular existe para interagir com os demais, ele é totalmente intolerante com contradições internas. A raiz entra em conflito com os galhos, as folhas e as flores. Os frutos deixam de aparecer ou surgem com defeitos. A árvore adoece e torna-se infrutífera. E como toda arvora doente, as folhas amarelam, as flores murcham, os galhos enfraquecem e uma hora a árvore morre.
Esse é o desafio principal do ser humano durante sua jornada terrena: entender, aceitar e aprimorar este universo particular. Entender o que de fato sua existência significa perante o mundo, aceitar sua essência observando suas qualidades e seus defeitos que o tornam singular e aprimorar esse universo através da aquisição de experiências e aprendizados, mudando de dentro pra fora, tornando-se melhor para si próprio e corrigindo os defeitos que nos fazem adoecer.
Em suma, o objetivo maior da existência é buscar a harmonia nesse universo singular. E para isso o ser humano deve aceitar esse “eu” da forma como de fato é e aceitar o conhecimento que adquire, mudando de dentro para fora, corrigindo as imperfeições que impedem esta harmonia e não viver inserindo contradições pessoais, aumentando ainda mais este conflito particular existente em cada universo.
Yuri Lucchesi
SUAS CINZAS
SUAS CINZAS
Dar-lhe-ei drinques em fogueira santa,
Descarte de pecados e ilusões,
Cuja queima aos céus se eleva,
Em nuvens desfiguradas que da alma emana.
O crepitar uníssono de suas brasas,
Une-se ao ranger de dentes de sua ira,
Transformando o orgulho em migalhas,
Consumindo a ingratidão e a agonia.
Labaredas ao alto cegam meus olhos.
Seu cheiro sulfídrico me entorpece.
O calor das chamas queimam meu lábios.
O som de sua fúria me emudece.
Mas, ao raiar do dia, sua labareda acalma;
Seu cheiro putrefato desfalece;
Sua melodia irritante, enfim, se cala;
O sabor plumboso de tuas cinzas permanece.
Descarte de pecados e ilusões,
Cuja queima aos céus se eleva,
Em nuvens desfiguradas que da alma emana.
O crepitar uníssono de suas brasas,
Une-se ao ranger de dentes de sua ira,
Transformando o orgulho em migalhas,
Consumindo a ingratidão e a agonia.
Labaredas ao alto cegam meus olhos.
Seu cheiro sulfídrico me entorpece.
O calor das chamas queimam meu lábios.
O som de sua fúria me emudece.
Mas, ao raiar do dia, sua labareda acalma;
Seu cheiro putrefato desfalece;
Sua melodia irritante, enfim, se cala;
O sabor plumboso de tuas cinzas permanece.
Yuri Lucchesi
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O que é Riqueza? - Parte 2
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