Em uma semana realmente chocante e de
tristeza pela queda do voo do time da Chapecoense que ceifou a vida de 76
pessoas, o luto constante em nosso olhar não nos impede de ver os demais
acontecimentos igualmente horríveis que se desenrolam nas esferas políticas e
judiciárias brasileiras.
Novembro de 2016 certamente ficará marcado na
história por momentos nefastos, mas um deles cabe uma profunda reflexão no
momento que foi a decisão de uma das turmas do Supremo Tribunal Federal por
tornar atípico (descriminalizar) o aborto quando realizado até o terceiro mês
de gravidez. Não vou me atentar ao voto dos ministros. O que cabe é refletirmos
como a nossa aceitação leniente aos desígnios da nossa incompetência estão
levando-nos a flertar cada vez mais perto com a barbárie.
O argumento mais bradado aos quatro ventos
dos mais longínquos rincões da nação por aqueles que levantam bandeiras
duvidosas em nome de uma suposta democracia é de que o aborto já existe. Só que
para a mulher rica ele funciona em clínicas limpas e com leitos luxuosos
enquanto para a mulher pobre é com o pé no cemitério por ser realizado em
clínicas clandestinas e sem recursos. Este discurso é fraco e sombrio. Estamos
tornando escusável a prática de um crime pela assunção de nossa própria
ineficácia em fiscalizar e em punir.
O Brasil encontrou uma forma esquizofrênica
de resolver problemas: chamar os problemas de soluções! Se não conseguimos
fiscalizar e punir o tráfico, queremos legalizar as drogas! Se não conseguimos
fiscalizar e punir os donos das clínicas de aborto e aqueles que o praticam,
nós legalizamos o aborto. Estamos caminhando a passos largos para o momento
onde tornaremos legal o homicídio por termos incompetência em fiscalizar e
punir os homicidas, já que no Brasil a estimativa é de que 1 a cada 100 crimes
sejam solucionados! Estamos desistindo de enfrentar nossas problemáticas e
dando os braços a elas em nome de um falso bom senso!
As únicas coisas da qual jamais abrirão mão é
das infrações de trânsito, afinal, é um dinheiro fácil e rápido na conta
governamental. Para estas a fiscalização aumenta a cada dia. A tecnologia
estará sempre a favor. O número de agentes de trânsito estará sempre subindo,
pois é interessante para o governo ter o controle da situação. Não pelo nosso bem
estar em punir os maus motoristas. Somos a última prioridade. Mas sim porque as
receitas dependem disso!
“Mas e daí? São só fetos em seu terceiro mês
de gestação”! É só um ser humano com batimentos que está se desenvolvendo. Mas
nos julgamos capazes de extirpar este ser humano em formação do mundo no qual
somos passageiros. Começamos por tirar os anencéfalos. Agora aceitamos até o
terceiro mês indiscriminadamente. Em breve o povo brasileiro revelará ao mundo
seu preconceito “velado” e aceitará o aborto de todo e qualquer feto com
deficiência. Tornaremos-nos uma Esparta Moderna de seres perfeitamente
elaborados! E tudo isso porque aceitamos que somos incompetentes em fiscalizar.
Mas as pesquisas são omissas ao não perguntar
a uma mãe que perdeu seu feto ou àquela que perdeu seu filho se ela é a favor
do aborto. Enquanto casais se sacrificam para conseguir procriar, alguns estão
se vangloriando da sua incapacidade de prevenir. “A partir de agora esqueçam a
camisinha”! A desculpa de que ela protege contra doenças nunca foi o marketing
mais poderoso de vendas! Agora esqueça DIU, Pílula e tantas outras coisas. Em
breve o SUS resolverá seu problema. Quando isto acontecer, o único ponto
positivo será a diminuição das filas nos setores de pediatria. Em
contrapartida, faltarão obstetras (mais ainda) nos hospitais!
Mas a mulher que manda no seu corpo. A mulher
que decide se quer ou não abortar (matar) o seu filho que não fez nada para
prevenir. A desculpa da camisinha furada vai se tornar hit do momento. Do outro
lado o governo economizará uma nota com campanhas de planejamento familiar. Eu
já questionava há algum tempo o desaparecimento destas campanhas (vide post UseCamisinha). A descriminalização do aborto é a cereja do bolo deste descaso.
Mas vamos pensar que é pelas mulheres pobres.
Vamos pensar que é uma forma de humanidade. Vamos pensar que o governo está
pensando em nós. Mas jamais perguntaremos às mães que perderam seus filhos se
elas são a favor.
Lamento por termos chegado neste estado de
descaso. Lamento por estarmos flertando com a barbárie e rirmos disso como
evolução social. Lamento mais ainda porque tudo isso ocorre num momento onde já
estamos muito abalados pela morte dos tripulantes do avião da Chapecoense. Fica
nosso luto por eles, fica nosso luto pela morte da nossa sensatez, fica nosso
luto pelos fetos que jamais terão a chance de ler este texto.












